Dia das Mães: a história de luta pela adoção de um filho com paralisia cerebral

0
543
“Eu brinco muito que o Mateus não nasceu de mim, ele nasceu para mim”

Ser mãe é uma escolha e algumas mulheres não têm a menor dúvida disso, como a Gleiziane Peixoto, que chegou a esquecer por um tempo o sonho de gestar uma criança para se dedicar exclusivamente aos cuidados com o filho adotivo, com paralisia cerebral. Gleiziane é uma das mães que, literalmente, lutou com “unhas e dentes” pelo bem-estar do filho, a começar pela batalha travada na Justiça para conseguir a guarda dele, a quem foi dado pouco tempo de vida, mas que, graças ao amor da nova família, em especial da mãe, ganhou uma nova perspectiva e surpreendeu todo mundo.

“Viver com o Mateus é igual parque de diversões. Tem dia que estamos numa montanha russa, tem dia que estamos no carrossel. É essa loucura toda, mas tudo vale a pena. Eu faria tudo de novo”, comenta a mãe do menino.

Gleiziane conheceu o Mateus quando trabalhava em um consultório odontológico. Um dia ela foi levar uma prótese para a irmã do pai biológico dele e se encantou pelo menino. A partir daí ela o apadrinhou e passou a sempre levar roupinhas e brinquedos para o Mateus.

“Desde o primeiro dia, me apaixonei por ele e daí todas as vezes que a gente ia na casa da família biológica, a mãe biológica sempre falava que iria dar ele para os outros, que não o queria. Isso, o Mateus tinha apenas três meses de vida. Ela foi embora com ele para Belo Horizonte, eles [pais biológicos] são de lá, são andarilhos. O Mateus ficou oito meses longe de mim. Esses oito meses foram de um sofrimento muito grande. Ele voltou dia 02 de junho, quando ia completar um ano. No dia 27 de junho de 2009 o Mateus completou um ano. A avó dele me ligou e falou que o Mateus havia voltado e não estava bem, precisando de tratamento e que ela não tinha condições, nem físicas, financeira e nem emocional, para cuidar dele. Eu abri mão do meu trabalho e comecei a dedicar minha vida inteira a ele”, relata Gleiziane.

Adoção

A mãe adotiva do Mateus conta que chegou a ser chamada de louca por querer adotá-lo, mas que, mesmo com todos os obstáculos que foram surgindo pelo caminho, não abriu mão de tê-lo por perto.

“Entrei na Justiça para pegar a guarda dele. Foi muito difícil, foram seis anos lutando para ter a adoção definitiva do Mateus. Nesse meio tempo, foram muitas internações, ele tem paralisia cerebral, hidrocefalia, grau quatro, tem uma válvula na cabeça e foi muito tempo lutando. Ter adotado o Mateus foi a melhor escolha que eu já fiz, embora eu sempre fale que na verdade ele é que nos escolheu. O Senhor preparou ele para nós. Eu brinco muito que o Mateus não nasceu de mim, ele nasceu para mim. Graças a Deus, a família toda abraçou a causa, os amigos, todo mundo é muito apegado a ele. O Mateus está cada dia mais desenvolvido”, comenta Gleiziane.

A guarda provisória do Mateus para a família de Gleiziane saiu em um momento muito importante para a saúde do menino, que poderia ter falecido se não fossem os cuidados dos pais adotivos.

“Parece que foi providência de Deus. No dia 20 de maio de 2010, o Mateus passou mal pela primeira vez. Ele teve problema com a válvula e ainda não estava incluído no meu plano de saúde, porque ainda não estava no meu nome. Esse menino ficou muito ruim e se não fosse transferido para Belo Horizonte rápido, iria a óbito. Estávamos tentando transferir ele para o Hospital da Baleia, onde foi colocada a válvula, mas não tinha vaga. Quando foi às 15h, por milagre de Deus, minha advogada ligou falando que o promotor tinha deferido a guarda provisória e a gente poderia pegar a documentação. Nisso, meu esposo correu para pegar os papéis e levar na empresa onde ele trabalha para incluir o Mateus no plano de saúde. Em questões de horas, eles colocaram ele no plano e às 18h o Mateus foi transferido pela Unimed para Belo Horizonte, com direito a fazer todo o procedimento que fosse preciso. Geralmente, tem o prazo de carência para incluir alguém, mas nem teve isso”, relembra.

Para quem acompanhou de perto a história, era indiscutível que a guarda do Mateus deveria ser da Gleiziane, principalmente pelo fato dele não se enquadrar nos padrões procurados pelos casais para adoção. Contudo, diferente do que se vê na TV em casos como estes, não foi nada fácil para a família ter a guarda definitiva do Mateus.

“Os pais biológicos entraram na Justiça em Belo Horizonte pedindo a guarda dele de volta. Todas as vezes que o Juiz daqui mandava ou publicava edital para eles comparecerem aqui, não os achava, porque eles não têm endereço fixo. Mas eu nunca desisti! Eu conheci o Mateus, me apaixonei e lutei até o fim para ficar com ele. E, não importava o problema dele, eu não queria saber quanto tempo ele iria viver, eu queria ele para mim, porque eu já sabia que ele nasceu para ser meu filho”, conta a mãe do Mateus.

Gleiziane jamais esquece do apoio que recebeu do primeiro médico do Mateus, que não saiu do lado dele enquanto ele aguardava a transferência para Belo Horizonte. “O primeiro médico que eu levei o Mateus foi o Dr. Délio, que foi uma pessoa que também me incentivou muito a ficar com o Mateus. Ele me falou: ‘olha é um desafio muito grande e a gente não sabe até quando ele irá viver’. Dr. Délio esteve ao nosso lado e me ajudou muito com o Mateus. Sou muito grata a ele”, comenta.

A realização de mais sonho

Durante um tempo, Gleiziane colocou de lado o sonho de gerar uma criança para garantir ao Mateus tudo de melhor que ela pudesse oferecer. No entanto, a medida que as coisas foram se ajeitando, a gestação voltou a fazer parte de seus planos.

“Eu sempre tive o sonho de gerar. Eu sabia que tinha problemas nos ovários e que teria que fazer um tratamento, mas devido à vida corrida com o Mateus, eu tinha aberto mão do sonho de gerar. Eu falava que não teria mais filhos, porque o Mateus requer muita atenção, mas sempre com aquele sonho guardado dentro de mim. Em 2017, eu comecei o tratamento para poder engravidar e tive um aborto. Eu sofri demais com isso. Eu engravidei em agosto e em setembro perdi. Continuei lutando, porque era meu sonho ter um casal de filhos, o Mateus eu já tinha, faltava a Mariana. Consegui engravidar dela e hoje a Mariana está ajudando muito no desenvolvimento do Mateus”, comemora Gleiziane.

Relação com a família

Com brilho nos olhos, Gleiziane conta que a relação do Mateus com a família é excelente, tanto com o pai, quanto com a irmãzinha que ainda não completou nem um ano de vida. O Mateus hoje está com 10 anos e frequenta a escola regular. Ele foi muito bem recebido na Escola Municipal Padre Waldemar, onde frequenta como qualquer outra criança. Mateus adora segurar a irmã no colo e brincar com ela. É notória a desenvoltura dele, que é fã de carteirinha da franquia de filmes Toy Story, como ele mesmo contou à reportagem.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui